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Exclusão social da criança como sujeito pensante

Exclusão social da criança como sujeito pensante

Por: Marcia Belmiro | Crianças | 12 de agosto de 2019

Como a autorresponsabilidade pode trazer benefícios a toda a família

Um dos pilares fundamentais do Kids Coaching é a geração de autorresponsabilidade nas crianças, no que diz respeito àquilo que está dentro das suas capacidades e possibilidades. Vemos este princípio como base para comentar o que a psicóloga Lucia Rabello de Castro chama de “questão político-ética da infância”: a exclusão social da criança como sujeito pensante.

No artigo “Da invisibilidade à ação: crianças e jovens na construção da cultura”, Rabello critica a “lógica desenvolvimentista”, que coloca as crianças numa posição de extrema sujeição ao adulto, uma vez que entende a criança como “potencial adulto”. Ou seja, a pesquisadora apresenta que esse ponto de vista desenvolvimentista caracteriza a vida humana a partir de uma escala de capacidades, na qual a criança ocuparia o “ponto de partida”, o lugar de menor capacidade possível frente a seu futuro desenvolvimento. Segundo ela, essa lógica “posicionou a criança enquanto um sujeito marcado pela potencialidade, pelo vir-a-ser, e não pela competência no aqui e agora”, o que “reduz seus direitos civis e políticos”. Assim, as crianças seriam vistas como se ainda estivessem “aguardando uma posição ulterior de participação e responsabilidade” em todos os âmbitos de suas vidas.

Na contramão deste raciocínio de discriminação, Rabello defende que as crianças são dotadas de pulsões, inclusive políticas, e capazes de ter opiniões e tomar decisões por conta própria, embora seja óbvio que possuem menos experiência de vida e que nem sempre suas decisões trarão bem-estar a si mesmas e aos demais. Tal deslocamento do ponto de vista desenvolvimentista pode ser interessante para podermos identificar as capacidades reais de cada criança em vez de apenas considerarmos as potencialidades infantis, o “vir-a-ser”. De fato, não é razoável dizermos que as crianças são capazes de lidar de maneira plena com as mesmas dificuldades e responsabilidades que são dirigidas aos adultos, ou tomar as mesmas decisões com o grau de complexidade exigido de um adulto. No entanto, é fundamental reconhecermos a criança como sujeito de ação, dotada de inúmeras capacidades, dentro dos limites de amadurecimento físico-psíquico-biológicos de sua idade.

Eu sempre falo sobre isso em termos de uma metáfora que me agrada muito: uma criança de 5 anos é capaz de carregar um mochilão de viagem (daqueles grandões que costumam ser usados em viagens e trilhas por adultos)? Não, ela não é capaz. No entanto, é possível que ela carregue sua própria mochilinha, com peso adequado a seu tamanho, a caminho da escola.

De forma análoga podemos tratar da autorresponsabilização… Não adianta navegarmos em extremos: a criança como “rei da casa” (que toma todas as decisões e não pode ser contrariada em seu desejo) ou, num outro extremo, a criança como incapaz de tudo, subjugada unicamente ao desejo do adulto cuidador. Um equilíbrio faz-se necessário a fim de ajudarmos a criança a compreender as consequências de suas atitudes no mundo, a fim de entendermos a criança como sujeito pensante, parte integrante e ativa da sociedade e principalmente parte ativa de sua própria existência.

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