Neuroplasticidade, memória e atenção na escola

Neuroplasticidade, memória e atenção na escola

Por: Marcia Belmiro | Adolescentes | 03 de fevereiro de 2020

A médica, neuropsicóloga e coordenadora do programa de extensão NeuroEduca (UFMG) Leonor Guerra concedeu uma entrevista exclusiva a Sabrina Oliveira, cocriadora do método Grow Coaching. A autora do livro Neurociência e educação, que consta na bibliografia básica da formação TeenCoaching, falou sobre as novas descobertas dos cientistas no campo da memória e da atenção, e como isso impacta especificamente os adolescentes em sala de aula.

Esta foi a última entrevista que Leonor Guerra aceitou conceder publicamente, coroando décadas de brilhantismo acadêmico. A íntegra pode ser acessada somente pelos alunos da formação TeenCoaching, mas selecionamos alguns trechos para aqueles que acompanham o Blog do ICIJ.

Confira aqui:

Neuroplasticidade

“O conhecimento sobre a neurociência cresceu muito nos últimos 20 anos, desde os aspectos básicos do sistema nervoso até os aspectos comportamentais, e nos últimos anos temos colhido os resultados dessas pesquisas. Alguns estudos importantes são sobre as bases neurobiológicas da aprendizagem, como a neuroplasticidade (um conceito básico do sistema nervoso que já era conhecido antigamente, mas hoje em dia foi muito mais bem estudado). Este fenômeno básico da aprendizagem (capacidade que os neurônios têm de se reorganizar e reorganizar suas conexões – chamadas de sinapses) acontece à medida que o sujeito interage com o ambiente.”

“Durante essas interações, o indivíduo recebe diversos estímulos e as redes neurais são ativadas. Se essa ativação for bem executada durante o dia, a probabilidade é que durante a noite esses neurônios sejam reativados durante o sono. Nesse processo as sinapses se organizam, com base na produção de proteínas, por isso a alimentação é fundamental. É necessário ter um aporte de proteínas, sais minerais, carboidratos e lipídios para que os neurônios possam fazer crescer parte dos seus axônios e dendritos, e a partir daí as sinapses serem reorganizadas. Mas essas novas conexões não acontecem em um sono só, por isso tudo que aprendo tenho que repetir, retomar, rever, com intervalos de tempo. Não adianta ter contato com tudo de determinado assunto em um só dia, porque não vou conseguir reorganizar o sistema nervoso para aprender e me apropriar desse conhecimento.”

O processo de atenção

São muitos estímulos ao mesmo tempo no dia a dia, e o cérebro não processa todos com a mesma eficiência. Por exemplo: consigo falar ao telefone enquanto dirijo, mas há uma alternância de foco. O cérebro não faz exatamente duas coisas ao mesmo tempo, como se pensa. E, ao alternar, perde um pouquinho de informação de um ou de outro processo. Se não houver concentração (atenção sustentada), a probabilidade de haver a retomada desse processamento no momento do sono é menor. Quando a atenção é dividida, perde eficiência. Ou seja, quando vou estudar, é importante desligar o celular, resolver o que me preocupa antes e evitar interrupções.”

A memória

“O sistema nervoso se desenvolveu ao longo da evolução com o objetivo não especificamente de ir para a escola, aprender matemática etc. A gente tem sistema nervoso, que é capaz de reorganizar redes neurais e aprender novos comportamentos (neuroplasticidade) para nos adaptarmos, ou seja, a gente aprende comportamentos que fazem com que nossa vida seja melhor, que garantam nossa sobrevivência e bem-estar. Por isso, o que se aprende na escola tem que ter algum sentido para o aluno, tem que modificar a vida do aprendiz. Se o estudante não percebe que aquele esforço que está fazendo para aprender determinado conteúdo tem qualquer inserção na vida dele, o cérebro não vai se dedicar a aprender. Os professores e pais (que são também educadores) devem propiciar uma aprendizagem que seja significativa e que o fato de o aluno conseguir aprender determinado conteúdo ou habilidade tem que fazer diferença na vida daquele indivíduo.”

                      

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